«O site deve ter versão em inglês?» é das perguntas que mais ouvimos a negócios em Lisboa, no Porto e no Algarve. A resposta honesta é que depende menos de quantos turistas passam à porta e mais de três coisas que pode verificar esta semana: quem já o contacta em inglês, o que essas pessoas procuram antes de vir, e se alguém no negócio consegue responder-lhes.
Quem lê o seu site em inglês
Os números dão duas pistas e uma surpresa.
Os turistas. Segundo as Estatísticas do Turismo 2025 do INE, divulgadas em 2026, as dormidas de não residentes foram 67,1% do total na generalidade dos meios de alojamento. O Reino Unido foi o primeiro mercado em dormidas de não residentes, com 17,3% do total, e a Espanha o primeiro em número de turistas chegados. A dependência de poucos mercados é maior no Algarve: o principal mercado externo pesa 34,4% das dormidas de não residentes na região, e os três maiores juntos 56,8%. Na Grande Lisboa é a região menos dependente, com 16,6% e 32,2%. Ou seja: no Algarve os visitantes estrangeiros vêm de poucos países e o Reino Unido é o maior mercado do país, por isso o inglês pesa muito; em Lisboa e no Porto, o leque é mais largo.
Os estrangeiros residentes. Portugal tinha cerca de 1,6 milhões de estrangeiros residentes no fim de 2025, perto de 14% da população, segundo os números do INE e da AIMA noticiados em 2026.
A surpresa. A maior comunidade estrangeira é a brasileira, com cerca de 31% desse total, segundo o relatório da AIMA. Um terço dos estrangeiros que vivem em Portugal lê o seu site em português sem problema nenhum. «Temos muitos clientes estrangeiros» não é, por si, um argumento para uma versão em inglês. Convém saber quais.
Três perguntas antes de decidir
Antes de gastar dinheiro em tradução, responda a isto com dados, não com impressões.
- Recebe pedidos em inglês? Conte os emails, mensagens de WhatsApp e chamadas em inglês do último mês. Se são um ou dois por ano, a resposta está dada.
- O seu cliente decide antes de chegar? Quem reserva um quarto, uma mesa para o jantar ou uma visita guiada decide em casa, no telemóvel, em inglês. Quem entra numa pastelaria porque passou à porta não leu o site.
- Alguém consegue responder? Um site em inglês promete atendimento em inglês. Se o telefone é atendido só em português, o site está a convidar pedidos que não consegue tratar.
Se tem a Google Search Console ligada ao site, há uma quarta pergunta, mais precisa: no relatório de desempenho, filtre por país e veja que pesquisas em inglês já trazem pessoas ao site. São essas as palavras que a versão em inglês deve usar.
Uma página ou o site inteiro
Não há só duas opções. Há três, e a do meio é a que serve à maior parte dos negócios.
Fizemos uma demo de uma casa de hóspedes no Douro, a Casa da Serra, onde o português é o original e o inglês é uma segunda versão completa, com a ligação para mudar de língua no topo de cada página. É o terceiro caso: quem reserva um quarto no Douro a partir de Londres ou Toronto precisa de ler tudo, preços incluídos.
Lembre-se de que cada idioma é uma segunda cópia de todo o texto, a manter para sempre. Mudou o horário? Muda em dois sítios. Um prato novo, um preço novo, uma fotografia de outra época: em dois sítios. Uma versão em inglês desatualizada é pior do que nenhuma, porque o cliente confia nela.
O que o Google pede a um site em dois idiomas
A documentação do Google para sites com vários idiomas é clara em quatro pontos, e quase todos os erros que vemos vêm de os ignorar.
- Um endereço próprio para cada idioma. Por exemplo, o seu domínio para o português e o mesmo domínio com /en/ para o inglês. O Google desaconselha mudar a língua com cookies ou definições do navegador, porque assim não encontra as duas versões.
- Nada de redirecionar pela localização. O Google pede que não se mande o visitante para uma língua com base no que se presume que ele fala, e lembra que o rastreador do Google costuma visitar a partir dos Estados Unidos. Um turista português em Londres não quer ser mandado para a versão inglesa.
- Uma ligação visível para mudar de língua. O visitante escolhe. Uma bandeira não é a melhor escolha: o inglês não é uma bandeira, e escrever «English» e «Português» é mais claro.
- Uma língua por página. O Google determina o idioma pelo conteúdo visível. Traduzir só o menu e deixar o texto em português dá uma página que não serve a ninguém.
O pormenor técnico que falta é a anotação hreflang, uma linha no código de cada página que diz ao Google «esta é a versão inglesa daquela página portuguesa». Quem faz o site deve tratar disso; se o seu já tem duas línguas, peça para confirmar que existe.
Tradução automática: o problema é o cliente, não o Google
Há extensões que traduzem o site inteiro com um clique. Duas coisas a saber.
A primeira: muitas traduzem no navegador do visitante, e então não existe nenhuma página em inglês para o Google encontrar. O turista que pesquisa em inglês não chega a ver o seu site.
A segunda pesa mais. A tradução automática melhorou muito, mas erra precisamente no que importa num negócio local: nomes de pratos, termos técnicos de um ofício, condições de cancelamento, o tom. «Bacalhau à Brás» traduzido à letra não diz nada a ninguém. Uma política de cancelamento mal traduzida é uma discussão à espera de acontecer.
Use a tradução automática como primeiro rascunho, se quiser, e peça a alguém que fale inglês para o rever. Para uma página «In English» de 300 palavras, é uma hora de trabalho de quem sabe.
O português continua a ser a versão principal
O Decreto-Lei n.º 238/86 pede que a informação sobre os bens e serviços vendidos em Portugal, incluindo a publicidade, esteja em língua portuguesa, e os contratos e faturas também. A versão em inglês é um acrescento, não uma substituição. Um site só em inglês para um negócio que vende em Portugal é mau sinal para os clientes portugueses e, nos termos desta lei, uma dor de cabeça escusada.
Na prática: o português é o original, a versão inglesa é a cópia, e as condições que contam (preços, cancelamentos, a política de privacidade) existem sempre em português. Se o seu negócio é alojamento local, as regras sobre o que a publicidade tem de indicar aplicam-se às duas versões; vimos isso em Alojamento Local: o que tem de estar no site.
O perfil do Google, as avaliações e as respostas
O Perfil de Empresa no Google tem uma só descrição, com um limite de 750 caracteres. Escreva-a em português, bem, e não tente encaixar as duas línguas no mesmo campo: metade do espaço vai-se, e nenhuma das versões diz tudo. O campo do site, esse, deve apontar para a página principal em português; a ligação para a versão inglesa está lá, no topo.
As avaliações em inglês merecem resposta em inglês. É o detalhe que mostra ao próximo turista que alguém do outro lado o vai perceber, e custa duas frases. Sobre como responder, sobretudo às más, veja como pedir avaliações no Google, e responder às más.
Não sabe se os seus clientes estrangeiros chegam a encontrar o seu site, ou em que língua o procuram? Peça uma análise gratuita: vemos o site e o perfil do Google lado a lado e dizemos-lhe se uma versão em inglês se justifica.
Para ler a seguir: reservas diretas sem comissões, para quem recebe turistas pelo Booking e pelo Airbnb, e quanto custa um site em 2026, onde os idiomas entram na conta.
Fontes oficiais
Os textos oficiais por trás dos pontos acima: